quarta-feira, 19 de abril de 2017

Você não passa de um grande filho da puta

- Você não passa de um grande filho da puta.

Foi isso que ouvi depois de uma surpresinha. Dois dias atrás, cheguei do trabalho cansado e vi o carro do meu irmão que não via há muito tempo.  Não tinha ninguém em casa, ele me cumprimentou e entramos.

- Cara, sabe o que eu tô com vontade?  De jogar Super Nintendo – ele disse, enquanto eu abria a porta da cozinha.

A ideia foi bacana, abrimos aquela caixa empoeirada e limpamos fita a fita, além dos controles. Começamos jogando Mortal Kombat, passamos por Top Gear, Donkey Kong, Super Mario World e até que tivemos a genial ideia: ganhar uma Copa do Mundo no Superstar Soccer com Alejo, Pardilla e companhia. Vagamente, eu lembrava que tinha alguma coisa para fazer naquela Sexta-Feira, mas logo aquilo passou batido.

Jogamos para caralho, eu fazia tanto gol, até de carretilha. E quando chegamos à final, aquele arrombado perdeu para a Itália de 2 a 0, dois gols do Carboni. Fiquei puto. Mas passou. Depois disso,  sentamos na varanda, acendi um cigarro e lhe ofereci um. Ele balançou a cabeça e disse:

- Tenho algo melhor.

Buscou no carro dois charutos e um whisky Black Label, sacou um isqueiro de filme de faroeste e acendeu o meu e o dele. Começamos a lembrar de quando jogávamos em um time amador e aquele dia que eu apanhei no vestiário, além daquela noite nada legal em que fomos ameaçados por causa de uma menina, que aquele retardado tinha pegado muito tempo atrás.

Foi uma noite incrível. Perdi a noção do tempo.

No outro dia, acordei umas 15h, vi que a bateria do celular estava descarregada, coloquei para carregar e tomei um banho. Liguei o celular e tinha umas 50 mensagens. Liguei para a Geovana:

- O que foi?

- O que aconteceu ontem? – respondeu seca.

- Ah, meu irmão veio em casa e perdemos a noção do tempo. Jogamos vídeo-game, conversamos, foi...

- Mano, você tá tirando? – me interrompeu. – Ontem foi o aniversário do meu pai, porra!

Sabia que tava esquecendo de alguma coisa, mas sinceramente, aquele momento com meu irmão foi tão bacana, que nada iria substituir aquilo. Mas é claro que não respondi isso:

- Poxa amor, sinto muito. Eu... eu realmente esqueci. Me perdoa.

Ela desligou o celular. Vi que estava chegando a hora de um jogo, e eu tava muito afim de jogar bola. Peguei a moto e parti. Foi incrível, fiz dois gols e me senti o rei da porra toda.

Chegando em casa, peguei o celular e liguei para ela, continuava puta e não queria me ver. Tudo bem, assisti alguns filmes e dormi. No outro dia, acordei lá pelas 8h, não sei porque acordei tão cedo em um domingo. A primeira coisa que fiz foi ligar para Geovana:

- Estive pensando. Fiquei muito chateado com o que aconteceu. Precisamos conversar e muito sério.

Voltei a dormir.

Ouvi um barulho na porta:

- João, a Geovana quer falar com você – minha mãe disse.

Levantei e ela tava na sala, sorri e disse:

- Oi amorzinho.

- Meu, você tá bem? – ela tinha um rosto desesperada, parecia aflita.

- Tô bem e você meu anjo?

- Fala logo o que você quer – a voz dela quase não saiu, uma mescla de choro e decepção, talvez arrependimento.

- Não é nada. Olha o calendário.

Ela foi até a estante, puxou o calendário, seu olhar era endiabrado. Correu na minha direção, senti uma dor do caralho, ela tinha dado um murro no meu nariz. Subiu em cima de mim e começou a me socar, isso porque tinha feito balé a vida inteira, eu imagino se tivesse sido boxe. Era primeiro de Abril.

- Você não passa de um grande filho da puta! É FILHO DA PUTA! – não parava de bater.

Senti meu nariz escorrendo sangue, ela se levantou, seu olhar de raiva virou de preocupação, abaixou, estendeu as mãos e disse:

- Vem tomar banho.

Doeu? Doeu muito. Mas foi divertido.


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